EaD no Brasil: desafios e perspectivas

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Educação a distância amplia possibilidades de estudo e formação.

Fernando José Spanhol. Pedagogo, doutor e mestre em Mídia e Conhecimento pela (UFSC). Diretor da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), professor no PPEGC/UFSC e Gerente Executivo do LED/UFSC. Atua em educação a distância desde 1995. É avaliador da CAPES/UAB, INEP e CEE-SC. Kelly Cristina Benetti Tonani Tosta. Administradora, mestre em Administração e doutoranda em Engenharia e Gestão do Conhecimento pela UFSC. É professora do Departamento de Ciências da Administração da UFSC e pesquisadora do INPEAU/UFSC e do LED/UFSC.
Revista Ideias em Gestão.
Novembro/2009.

O advento das tecnologias de informação e comunicação, e suas diversas possibilidades de uso, têm potencializado a oferta de programas educacionais a distância. Cresce o número de pessoas que aprendem fora das salas de aula tradicionais. Amplia-se a oferta de tecnologias que servem como ferramenta de aprendizagem. Aumenta a qantidade de organizações que oferecem essa modalidade de ensino. Multiplicam-se as alianças entre instituições educacionais tradicionais, empresas, governos e organizações internacionais, para desenvolvimento de cursos a distância.

Esse crescimento se explica porque essa modalidade permite conciliar a necessidade de educação continuada com a escassez de tempo e as dificuldades cada vez maiores de as pessoas estarem fisicamente presentes em uma sala de aula. A evolução das mídias eletrônicas pode ser considerada uma das maiores responsáveis por essa maximização do uso de sistemas de Educação a Distância (EaD), já que permite, especialmente, o atendimento ao aluno em tempo real, independentemente do local em que ele esteja.

EaD no mundo

De acordo com a UNESCO (1997), vários governos introduziram programas de educação a distância com a finalidade de:

  • a)  facilitar o acesso às oportunidades de estudos e treinamento;
  • b) propiciar melhores oportunidades de atualização, reciclagem e enriquecimento pessoal;
  • c) proporcionar maior eficiência em termos de custos;
  • d) apoiar a qualidade e variedade de estruturas educacionais existentes; e
  • e) reforçar e consolidar a capacidade educacional existente.

As referências mundiais em EaD são a Open University, britânica, criada em 1968 e atualmente com mais de 180 mil estudantes interagindo online de suas casas com a Instituição, e a Fern Universität in Hagen, alemã, criada em 1974 e hoje com 55 mil alunos. É importante citar, também, pela magnitude dos números, a Indira Gandhi National Open University, criada em 1985 na Índia e com 1,4 milhão de alunos.

EaD no Brasil

No Brasil, as primeiras iniciativas universitárias de cursos de graduação por EaD foram da Universidade Federal do Mato Grosso e da Universidade Federal de Santa Catarina, no início da década de 90. O foco dos cursos criados à época era formar novos professores e atender as necessidades daqueles já em exercício na Educação Básica.

A EaD no Brasil é reconhecida oficialmente como modalidade de ensino e está regulamentada por uma série de portarias e decretos. A evolução da legislação está no Decreto 5.622 de 19/12/2005, que assim define EaD em seu primeiro artigo:

Caracteriza-se a educação a distância como modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos.

Esse entendimento é bastante genérico e voltado basicamente à regulamentação da EaD, sem a preocupação de detalhar o seu funcionamento. É importante, porém, destacar no artigo o uso da expressão “modalidade educacional”, que, no nosso entendimento, envolve o resultado de uma ação que relaciona ensino e aprendizagem. A partir dessa perspectiva, é fundamental a compreensão de que educação presencial e a distância são possibilidades didático-pedagógicas complementares. As instituições de ensino têm que ser competentes para aproveitar o melhor das duas modalidades para atender a demanda generalizada das pessoas por educação escolarizada.

Trabalho colaborativo

No âmbito mundial, incluído aqui o Brasil, percebe-se que, em um curto espaço de tempo, houve uma evolução notável nas gerações de EaD. Enquanto na segunda metade do século XIX predominava apenas uma forma, que era o envio de material por correio, hoje apresentam-se inúmeras tecnologias, em constante evolução.

A introdução de computadores e o surgimento e a capilarização da Internet propiciaram às pessoas oportunidade de participar de cursos com alto nível de qualidade sem sair de casa, forçando mudanças no enfoque tradicional da educação a distância, pois aumentaram o potencial para interação e para trabalho colaborativo entre os estudantes.

Atualmente, há uma ampla discussão, principalmente no âmbito universitário, sobre a aplicação dessas novas tecnologias nos processos educacionais. Isso se deve, entre outros fatores, à expansão da oferta de cursos de nível superior na modalidade a distância. De acordo com o ABRAEAD (2008), no ano 2000, havia no Brasil dez cursos de graduação a distância credenciados no MEC. Em 2006, esse número saltou para 349. Por sua vez, o número de instituições que ministram graduação a distância cresceu de 7 para 77 instituições, no mesmo período.

Educação a distância é um “caminho sem volta” e o seu crescimento no Brasil está desencadeando não só um reposicionamento no mercado de educação presencial, como também a abertura de uma nova fronteira de atuação, seja em cursos formais acadêmicos, seja em cursos de capacitação corporativa.

Percebe-se, porém, que nem todas as instituições estão conseguindo obter os resultados desejados no que se refere à formação dos alunos. O desafio agora é estabelecer padrões de qualidade, critérios para sua medição e modelos de gestão para que as instituições possam alcançar qualitativamente o mesmo salto que alcançaram quantitativamente.

Para que isso aconteça, é necessário, além de controle e acompanhamento pelos órgãos governamentais, que cada instituição de ensino desenvolva um projeto educacional e pedagógico consistente e uma política consequente de capacitação dos profissionais da organização.

Educação e reinvenção

O desenvolvimento, organização e planejamento de um curso a distância é um desafio cotidiano para o gestor de EaD e envolve diversas etapas. A partir da definição das competências que se quer desenvolver no curso e do perfil do profissional que se quer formar, uma equipe multidisciplinar vai pensar o conteúdo necessário, elaborar o material didático e estabelecer qual a melhor tecnologia para a disponibilização desse conteúdo.

A educação a distância efetiva só se realiza quando se garante uma verdadeira comunicação educativa bilateral. Dessa forma, uma proposta de EaD necessariamente ultrapassa o simples colocar materiais instrucionais à disposição do aluno distante.

Exige atendimento pedagógico que supere a distância e promova a essencial relação professor-aluno, além de estimular a interação entre os estudantes, por meios e estratégias institucionalmente garantidos.

Em muitos casos, porém, a incorporação das tecnologias de informação e de comunicação ao ensino tem respondido mais a critérios do “marketing educativo” ou a modismo pedagógico que a uma inovação real. Muitas instituições educativas – e, por extensão, seus docentes – se veem forçadas a incorporar um discurso de “modernização” de suas práticas, com o objetivo de conquistar um mercado potencial de estudantes, atraídos pelas novas tecnologias e pelas comodidades oferecidas, independentemente da qualidade dos programas (KOZAK, 2003).

O caminho, portanto, não é apenas viabilizar financeira e economicamente a instituição e organizá-la do ponto de vista legal e documental. É fundamental um projeto pedagógico consequente e a contratação de profissionais competentes, motivados, comprometidos e dispostos a se reinventar e a reinventar a instituição da qual fazem parte, focados no objetivo maior que é atender os anseios de uma sociedade que sabe que o mais valioso capital de uma nação é o conhecimento.

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