O meio ambiente no centro das decisões

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Organizações devem incorporar em suas estratégias a preocupação com desenvolvimento sustentável e a responsabilidade socioambiental

Paulo Williams Rocha da Silva. Graduado em Administração pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), com MBA em Gestão de Negócios, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Cursa Especialização em Desenvolvimento Econômico e Mestrado em Administração e Controladoria, na Universidade Federal do Ceará – UFC. Tutor da Faculdade AIEC.
Revista Ideias em Gestão.
Novembro/2009.

A preocupação com a preservação ambiental tem ganhado relevância nos últimos anos. Antes, de domínio e interesse exclusivo dos grupos de ecologistas e ambientalistas, o tema é hoje pauta nas principais rodadas de discussões no mundo, mobilizando diferentes segmentos sociais, políticos, religiosos e, principalmente, empresariais – foco fundamental deste artigo.

Nesse contexto, as organizações, especialmente as indústrias de transformação, têm um papel de importância vital.

Elas, em essência, são exploradoras dos recursos naturais, além de suportarem e serem suportadas por um modelo econômico absolutamente dependente do crescente aumento do consumo. A retroalimentação do sistema vigente tem levado ao elevado grau de degradação ambiental, com impactos cada dia mais visíveis aos olhos da sociedade contemporânea.

Meio ambiente, para as organizações, tem representado a análise conjuntural da localização geográfica, o que as faz levar em consideração apenas questões como mercado consumidor, logística, concorrentes ou outros elementos necessários à elaboração de um bom planejamento estratégico.

Inspirados nas ideias de Herbert Alexander Simon (pensador americano, Prêmio Nobel de Economia de 1978), sobre os “limites da racionalidade” e o processo de decisão nas organizações, estudiosos propõem uma releitura instigante e preocupante da relação entre eficiência e produtividade. A redução do uso de recursos, decorrente da forma como os novos processos estão organizados, poderia não estar trazendo reduções significativas dos impactos ambientais, ainda que sob o ponto de vista da tecnologia utilizada, esses processos se apresentem mais eficientes.

Em outras palavras: o “uso racional” de recursos humanos, materiais e tecnológicos tem elevado o nível de desempenho das organizações, inclusive com impactos positivos sobre as ações negociadas nas bolsas de valores. Porém, em face do crescimento dos níveis concorrenciais e do aumento das disputas por fatias cada vez maiores no mercado, esse incremento na produtividade estaria sendo alcançado à custa de um crescente ritmo de degradação ambiental.

É premente uma nova leitura dos aspectos ambientais por parte das organizações, de modo a incorporar em suas estratégias a ideia de desenvolvimento sustentável e de responsabilidade socioambiental, o que compreende, dentre outras, preocupação com o ambiente, utilização de energias renováveis e, especialmente, cuidado com as pessoas.

A questão central, portanto, já não se encontra mais na ausência de diagnóstico preciso ou de compreensão do papel das organizações nesse cenário, mas da capacidade destas de tomarem as melhores decisões quanto à forma de cada uma produzir e aos meios empregados em suas respectivas atividades.

Educar, envolver e sensibilizar

Defender a vida em sua plenitude deve consistir objetivo precípuo das empresas, como forma de perpetuar a espécie humana e, por conseguinte, garantir a existência de negócios, clientes e consumidores. Apesar de óbvias, essas questões parecem não transitar livremente nos corredores e salas das empresas. Ponderações dessa natureza precisam, onde isso ainda não acontece, fazer parte das discussões de planejamentos estratégicos. Também se torna relevante a reformulação das políticas de RH das empresas como forma de promover uma geral reeducação, pois não há como se pensar em novos paradigmas de desenvolvimento social e humano sem levar em consideração a educação das pessoas nas organizações.

Vale ressaltar o importante o papel das empresas na formação das pessoas, através de programas sistematizados de capacitação profissional. Essas ações trazem reflexos nas famílias, além das transformações nos modelos de organização doméstica, por conta das experiências vivenciadas pelos trabalhadores em seu cotidiano nas empresas. As pessoas são permeáveis a novas informações e levam para suas famílias hábitos adquiridos e comportamentos desenvolvidos a partir do aprendizado que acontece em seu dia a dia de trabalho.

Hábitos precisam ser mudados. Desde a forma como se trata o lixo familiar até o tratamento dos resíduos líquidos ou sólidos produzidos pelas grandes indústrias de transformação. É preciso envolver o trabalhador que recolhe material para reciclagem e os empregados que desperdiçam papel com impressões desnecessárias. É necessário sensibilizar o grande produtor de açúcar e álcool, em suas usinas fantásticas. Embora utilizem tecnologia de ponta nos processos produtivos, continuam poluindo o meio ambiente. Também deve ser orientado o pequeno produtor rural quanto ao correto uso de insumos agrícolas, e sobre a possibilidade de se produzir sem agrotóxico.

Interdependência

Tem ficado cada dia mais claro a relação de dependência entre as pessoas, as empresas e o Estado. As empresas precisam de trabalhadores para o desenvolvimento de suas atividades. Estes dependem das organizações que lhes oferecem trabalho e lhes pagam salário, para a sua sobrevivência e a manutenção de suas famílias. O Estado, por sua vez, depende dos recursos obtidos por meio dos impostos recolhidos pelas empresas, para o provimento dos serviços públicos. Essa relação histórica, porém, tende ao desequilíbrio, especialmente por conta das elevadas taxas de crescimento da população mundial e, especialmente, pelo aumento da demanda por serviços públicos básicos.

Não há dúvida de que as condições de vida, em geral, têm melhorado nos chamados países desenvolvidos e naqueles em desenvolvimento. As pessoas têm mais acesso a novas formas de conforto, novas tecnologias, meios de desenvolvimento de pesquisas, com efeitos na longevidade, por meio dos avanços na medicina ou na produção de medicamentos, vacinas, etc. Contudo, não podemos ignorar o grande número de pessoas que vivem à margem de todo esse desenvolvimento: muitos ainda sofrem privações de toda a ordem e morrem vítimas de subnutrição, falta de higiene ou ausência de assistência médica, das mais elementares, especialmente nos países considerados periféricos, subdesenvolvidos e mesmo naqueles em desenvolvimento. Somos 6,7 bilhões de pessoas no mundo. Destes, segundo dados mais recentes, aproximadamente um bilhão passa fome todos os dias.

Nesse ponto reside uma chaga fundamental do chamado desenvolvimento centrado no atual modelo econômico. Convido o leitor a refletir sobre a diferença entre crescimento econômico e desenvolvimento econômico.

O verdadeiro desenvolvimento acontece de forma plural e integrada. Podemos continuar optando pelo crescimento econômico, protegendo o modelo de concentração de renda, e presenciando o aumento da violência, apesar dos fortes investimentos em segurança de toda ordem. Por outro lado, podemos promover o desenvolvimento integrado e integrador, que permita condições de vida minimamente razoáveis a todos os seres humanos.

Nova forma de pensar a vida

O avanço tecnológico, ao qual se atribui toda sorte de correção de rumo ou suprimento dos meios necessários ao equilíbrio e busca por justiça social, não tem conseguido fazer face às distâncias entre a qualidade de vida dos povos de países desenvolvidos em relação às comunidades dos países periféricos ou em desenvolvimento.

Os países desenvolvidos, em especial os Estados Unidos e os países centrais da Europa, foram absolutamente favorecidos com o modelo vigente. Hoje, ao se falar em restrição ao ritmo de crescimento ou em crescimento sustentável, os governos desses países se sentem muito à vontade para criar ou sugerir novas regras, impondo ainda mais limites àqueles países que tiveram os seus respectivos desenvolvimentos limitados por imposições variadas como questões geográficas, culturais ou econômicas.

O respeito ao meio ambiente não pode ser somente uma questão de cumprimento das novas legislações, mas, sobretudo, uma nova forma de pensar a vida. Desde a revolução industrial, tem se acentuado a visão antropocêntrica, que considera tudo o que existe no mundo como recurso disponível para o homem. A natureza é percebida, do ponto de vista econômico, como externalidade.

Fomos criados e criamos gerações inteiras pensando de forma antropocêntrica, ou seja: “eu posso explorar tudo que puder da natureza em nome da sobrevivência”.

A discussão central, hoje, na área de Teoria das Organizações, se dá entre o paradigma denominado de Social Dominante, assumidamente antropocêntrico e o paradigma de Ecologia Profunda, apoiado no biocentrismo, concepção segundo a qual todas as formas de vida são igualmente importantes, não sendo a humanidade o centro da existência. Alternativamente, porém, surge o paradigma do Ambientalismo Renovado, que promove um alinhamento de interesses, favorecendo o diálogo dos dois paradigmas antagônicos na busca do Desenvolvimento Sustentável.

A velocidade com que a informação circula no mundo e o alto grau de tecnologia à disposição das empresas deu uma nova cara ao mundo dos negócios. Essa nova dinâmica do mercado pode elevar ou destruir uma organização rapidamente. As empresas estão se dando conta de que lucros e perpetuação já não resultam de simples operação entre receitas e despesas.

A sociedade está mais exigente e vai cobrar muito caro das empresas que não se ajustarem aos novos modelos produtivos de menor agressão ambiental ou que não respeitarem os direitos dos consumidores, clientes e trabalhadores. A formulação das estratégias definidas por Michael Porter (“Estratégia competitiva”, Rio, Campus, 1997) a partir da liderança total em custos, diferenciação ou foco dá sinais claros de necessidade de renovação. O ambiente competitivo passou a ter um novo ingrediente: o Meio Ambiente.

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