Moeda: uma viagem no tempo

Novos meios de pagamento tornam as transações mais seguras e facilitam a vida das pessoas.

Paulo Mauger. Graduado em Administração pela UNB, Mestre em Ciências de Administração de Empresas, Especialista em Finanças Públicas pela COPPEAD/UFRJ. Diretor de Administração da Escola Superior de Administração Fazendária ESAF do Ministério da Fazenda. Coordenador da disciplina Mercado de Capitais da Faculdade AIEC.
Revista Ideias em Gestão.
Novembro/2009.

Os avanços tecnológicos provocaram mudanças nas formas de pagamento e a moeda metálica evoluiu para a moeda virtual. Este artigo busca analisar e organizar os fatos que caracterizaram essa evolução e provocar a imaginação do leitor a prever novas formas possíveis de usufruir, através do poder de compra, de todas as conquistas do homem moderno, minimizando riscos, economizando tempo e otimizando recursos.

A origem da moeda

Antes de surgir a moeda, as transações comerciais eram realizadas através de um sistema chamado de escambo, que consistia na troca de um produto por outro. O depósito de alguns bens para atender as necessidades das sociedades primitivas, no caso, animais (bois, cavalos, porcos, etc.), vegetais (tabaco, arroz, etc.) e minerais (sal, conchas, etc.) fez surgir a mercadoria moeda como intermediária nas trocas. O elemento comum desses bens era a sua capacidade, em determinados momentos e lugares, de ser aceito como meio de pagamento.

Da mercadoria moeda evoluímos para a moeda metálica. Porém, o crescimento da quantidade de moedas metálicas em circulação acabou dificultando o manuseio e sua transferência entre os comerciantes. Além disso, a utilização de metais como o ouro gerava a necessidade de verificar o teor do metal utilizado, em operações bastante demoradas.

Para facilitar essas operações, os ourives passaram a depositar o dinheiro em bancos, recebendo certificados de depósitos, com a promessa de devolução, ao portador, da quantia entregue. Surgiu então a moeda papel e, com ela, o sistema de câmbio fixo que teve como base de troca o ouro. Esse padrão-ouro vigorou por mais de um século. Após a Segunda Guerra Mundial, passou a vigorar o padrão-dólar. Esse sistema perdeu sua estabilidade em 1973 em função de ondas especulativas contra o dólar dos Estados Unidos e da crise do petróleo. Atualmente, o lastro da moeda é definido por reservas e outras variáveis que determinam o seu real poder aquisitivo.

Sistema de Pagamentos

O sistema de pagamentos compreende o conjunto de procedimentos, regras, instrumentos e sistemas operacionais integrados, usados para transferir fundos do pagador para o recebedor e, com isso, encerrar uma obrigação de pagamento, interligando, dessa maneira, o setor real da economia com as instituições financeiras e o Banco Central. É um potencial propagador de risco sistêmico e, quando não devidamente desenhado, impede que este seja controlado e compartilhado de forma eficaz.

Ao observarmos a evolução do sistema de pagamentos, podemos entender melhor as funções da moeda e as formas que ela tem tomado com o passar do tempo. Os ativos de papel, como cheques e dinheiro, começaram a ser usados no sistema de pagamentos e passaram a ser vistos como moeda.

Saber para onde o sistema de pagamentos está indo tem importância para entender como a moeda será definida no futuro. O Brasil promoveu, em 2002, a maior mudança no sistema dos últimos 20 anos. Na ocasião, definiu o papel do Banco Central, adotou base legal e regulamentar adequada e implementou o novo Sistema de Pagamentos Brasileiro que permitiu a observância às recomendações e boas práticas internacionais. Essa mudança possibilitou a manutenção da estabilidade do sistema financeiro com a mínima utilização de recursos públicos, oferecendo ao cidadão brasileiro um sistema mais seguro, eficiente e barato.

Formas atuais de pagamentos

Os avanços tecnológicos ampliaram exponencialmente as possibilidades de efetuar o pagamento para comprar mercadorias e serviços. Alguns exemplos:

  • A “carteira virtual” já é uma realidade no Japão, com mais de 50 milhões de usuários.Nos EUA, são 9 milhões os que utilizam o sistema. O Edy, nome desse novo serviço, armazena os cartões de débito e de crédito em um chip integrado ao celular. O Japão já pavimentou o caminho para esse ser o padrão de pagamento no futuro, de acordo com relato da agência Reuters. Até 2013, espera-se que 700 milhões de pessoas no mundo tenham abandonado a carteira de bolso e estejam utilizando esse “dinheiro-celular”.
  • O USAA, banco privado e companhia de seguros dos EUA, permite que seus clientes fotografem os dois lados de um cheque para depositá-lo usando o seu iPhone. Apertado o botão de enviar, o depósito é feito normalmente e o usuário nem tem que enviar o cheque pelo correio. Como tudo será processado eletronicamente, o banco sugere que os clientes simplesmente rasurem o cheque antes de arquivar ou descartar.
  • No mundo virtual e nas redes sociais conectadas aos computadores, estão sendo criadas moedas que permitem comprar e vender bens virtuais. São alguns exemplos o Project Entropia Dollar (PED) do Planet Calypso, um mundo de jogos em tempo real chamado Universo Entropia, ou o Second Life, uma das maiores economias virtuais dos Estados Unidos, cujo volume de transações deve crescer 39% em 2009 e chegar a US$ 500 milhões, desempenho bem melhor do que o da economia real.
  • O pagamento antecipado é uma modalidade que cresce e diminui os riscos das partes envolvidas, podendo ser utilizado para comprar música, vídeos, jogos, créditos de telefonia e, em algumas circunstâncias, energia e gás. Com o cartão podemos evitar situações de inadimplência e risco de crédito.

Além das soluções tecnológicas, surgiram novas versões do escambo que têm sido bastante utilizadas como formas de pagamento. Para exemplificar, temos o caso da empresa Argent Trading, no mercado há 50 anos, que se especializou em negociar ativos financeiros problemáticos, numa operação chamada bartering (permuta, escambo). Nessa operação, emite APCs – Asset Purchase Credit (crédito de compra de ativos), uma moeda própria que será utilizada na compra de novos ativos para a empresa que vendeu ativos parados, como inventários excedentes, linhas de produtos descontinuados, mercadorias sazonais, pedidos cancelados, bens de capital, capacidades ociosas, equipamentos industriais, veículos de locomoção e transporte, imóveis, contas a receber de giro lento, etc.

A operação mais conhecida dessa empresa no Brasil aconteceu quando da compra da Kolynos pela Colgate, que lançou o creme dental Sorriso com os mesmos traços da marca Kolynos. Na ocasião, os órgãos de defesa do consumidor apreenderam os estoques do produto, 23 milhões de tubos de creme dental. A Argent Trading os adquiriu e revendeu, com permissão da Colgate internacional, em países como Turquia, Rússia, Egito e Taiti. O pagamento foi feito com matéria-prima, transporte e embalagens.

Alguns definem esse tipo de operação como “trading multilateral”, e são muitos os exemplos de operações semelhantes que economizam impostos, tarifas de câmbio e outros custos indiretos, minimizando perdas e melhorando a rentabilidade dos negócios.

Nesse tópico, a lista de exemplos é extensa. Temos, para citar mais um, as comunidades em geral que criam moeda própria (pode até ser sob a forma de cédulas) como créditos que permitem a permuta de serviços (consulta médica em troca de serviços de eletricista) ou permuta de mercadorias por serviços (um frango ou leitão por uma consulta médica).

Formas futuras de pagamento

Para concluir este artigo, fazemos um exercício de imaginação, listando algumas possíveis formas futuras de moeda:

  • Moeda Informação – informação organizada e analisada tem cada vez mais valor para os países e empresas.
  • Moeda Energia – a grande maioria das tecnologias depende da geração de energia.
  • Moeda Água – bem essencial para nossa sobrevivência. Haverá suficiente para todos?
  • Moeda Tempo – o tempo está cada vez mais escasso. A tendência é desenvolvermos formas de economizá-lo ou de utilizá-lo como moeda negociável.
  • Moeda Ar – o ar que respiramos virou moeda considerando os créditos de carbono que são negociados e as iniciativas das empresas poluentes em pagar para resgatar sua credibilidade e responsabilidade social. Trocas nessa área podem começar a ser exigidas pelos órgãos reguladores e incentivos, oferecidos para aumentar a sua aplicação.
  • Moeda Órgãos – embora este seja um comércio proibido, a fila para receber doação de órgãos, células e tecidos humanos é um exemplo de negociações que podem ser realizadas para salvar vidas.

As mudanças nas formas e nos meios de pagamento buscam facilitar a vida das pessoas, aumentar a segurança e diminuir os custos das transações, além de garantir liquidez às operações. A unificação das moedas nos grandes blocos econômicos é um exemplo dessa preocupação.

É interessante observar que, apesar das mudanças acontecidas nos meios de pagamento por conta da tecnologia da informação, o escambo, primeira forma de troca comercial estabelecida nas sociedades chamadas primitivas, é hoje uma prática comum no mundo globalizado e tende a aumentar, se levarmos em consideração os ciclos da economia internacional.

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